Uma mulher fantástica
Luis Fernando Verissimo
Ela perguntou como ele reagiria se um dia uma tia hipotética dela viesse hospedar-se com eles. Ele respondeu:
- E desde quando a sua tia solteira de Surupinga se chama Hipotética? Eu sei que ela se chama Amanda. Você vive falando nela.
- Está bem. A tia não é hipotética. É a tia Amanda.
- A visita dela é hipotética.
- Também não.
- Eu sou hipotético.
- Não. Você é um homem compreensivo, que receberá a tia Amanda como se ela fosse a sua tia também. Porque você sabe como eu gosto dela.
- Você não gosta da sua tia Amanda. Você adora a sua tia Amanda. A tia Amanda é seu ídolo.
- Eu sempre achei ela um exemplo de mulher moderna, ativa, independente...
- Que nunca saiu de Surupinga.
- Como não? A tia Amanda mora em Surupinga mas conhece o mundo todo! Já fez até curso de respiração cósmica na Índia.
- Respiração cósmica?
- Você aprende a respirar no ritmo do Universo, muito mais lento e profundo do que o ritmo da Terra.
- E do que o de Surupinga...
- Ela sempre volta para Surupinga porque cuida dos negócios da família. A tia Amanda também é uma executiva de sucesso. É uma mulher fantástica.
- E quando seria essa visita hipotética da tia Amanda?
Ouvem a campainha da porta.
- Deve ser ela agora!
- Espera. E onde a tia Amanda vai dormir?
- Aqui, no sofá.
- No sofá? Não vai ser desconfortável, para uma senhora?
- E quem disse que ela é uma senhora?
Tia Amanda não é uma senhora. É uma moça. Linda. Elegante. Fantástica.
- Titia!
- Celinha! Querida!
- Entre!
- Preciso de um homem para carregar esta mala.
- Por sorte, eu tenho um em casa.
Tia Amanda examina-o dos pés à cabeça.
- Mmm. Então esse é o famoso... como é mesmo o nome?
- Reinaldo.
Quem diz o nome é a Celinha, porque Reinaldo está paralisado. Fascinado. Embasbacado. Finalmente, consegue falar.
- E essa é a famanda tia Amosa. Ahn, a famosa tia Amanda.
Tia Amanda olha em volta da sala, antes de dar seu veredicto com um sorriso irônico:
- Acolhedora.
- Você gosta?
- Um dia vocês lembrarão deste período em suas vidas e se perguntarão: "Como podemos ser felizes com tão pouco?" É o que os franceses chamam de "nostalgie de la privation"...
- E como vão todos em Surupinga?
- Ninguém vai em Surupinga, minha querida. Em Surupinga só se fica.
- E você, titia? Arrasando corações, como sempre?
- Você sabe o que eu penso dos homens, Celinha. Homem só serve para abrir pote e segurar porta.
Ela se dá conta da presença de Reinaldo e acrescenta:
- Desculpe, Roberto. E para carregar mala.
- E os negócios?
- Cada vez melhores e mais aborrecidos. Eu precisava dar uma saída. Como Paris nesta época é muito chuvosa e Nova York tem brasileiro demais, decidi vir visitar minha sobrinha querida, que não via há tanto tempo.
- E conhecer meu marido.
- Quem? Ah, isso também... Mas chega de falar só de mim. Vamos falar de você. Você estava com saudade de mim, estava?
Mais tarde, Reinaldo e Celinha no quarto:
- Você disse que ela era fantástica mas esqueceu um detalhe.
- Qual?
- Ela, além de fantástica, é... fantástica!
- Vocês conversaram bastante enquanto eu fazia o jantar...
- Conversamos. Combinamos que ela vai me dar aulas de respiração cósmica.
Celinha ficou pensativa, antes de dizer:
- Não sei se vai ter tempo...
- Por quê?
- Ela vai embora amanhã de manhã.
- Já? Por quê?
- Os negócios em Surupinga. Estão exigindo a presença dela.
- Ela lhe disse?
- Não. Ela ainda não sabe.
Celinha chegara à conclusão de que as pessoas às vezes podem ser fantásticas demais.
Domingo, 23 de abril de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.